16 de mar. de 2022

Na jornada evolutiva

 Dos quatro cantos da Terra diariamente partem viajores humanos, aos

milhares, demandando o país da Morte. Vão-se de ilustres centros da cultura

europeia, de tumultuárias cidades americanas, de velhos círculos asiáticos, de

ásperos climas africanos. Procedem das metrópoles, das vilas, dos campos...

Raros viveram nos montes da sublimação, vinculados aos deveres

nobilitantes. A maioria constitui-se de menores de espírito, em luta pela

outorga de títulos que lhes exaltem a personalidade. Não chegaram a ser

homens completos. Atravessaram o “mare magnum” da humanidade em

contínua experimentação. Muita vez, acomodaram-se com os vícios de toda a

sorte, demorando voluntariamente nos trilhos da insensatez. Apesar disso,

porém, quase sempre se atribuíam a indébita condição de “eleitos da

Providência”; e, cristalizados em tal suposição, aplicavam a justiça ao próximo,

sem se com penetrarem das próprias faltas, esperando um paraíso de graças

para si e um inferno de intérmino tormento para os outros. Quando perdidos

nos intrincados meandros do materialismo cego, fiavam, sem justificativa, que

no túmulo se lhes encerraria a memória; e, se filiados a escolas religiosas, raros

excetuados, contavam, levianos e inconsequentes, com privilégios que jamais

nada fizeram por merecer.

Onde albergar a estranha e infinita caravana? Como designar a mesma

estação de destino a viajantes de cultura, posição e bagagem tão diversas?

Perante a Suprema Justiça, o malgache e o inglês fruem dos mesmos

direitos. Provavelmente, porém, estarão distanciados entre si, pela conduta

Individual, diante da Lei Divina, que distingue, invariavelmente, a virtude e o

crime, o trabalho e a ociosidade, a verdade e a simulação, a boa vontade e a

indiferença. Da contínua peregrinação do sepulcro, participam, todavia, santos

e malfeitores, homens diligentes e homens preguiçosos.

Como avaliar por bitola única recipientes heterogêneos? Considerando,

porém, nossa origem comum, não somos todos filhos do mesmo Pai? E por que

motivo fulminar com inapelável condenação os delinquentes, se o dicionário

divino inscreve a letras de logo as palavras “regeneração”, “amor” e

“misericórdia”? Determinaria o Senhor o cultivo compulsório da esperança

entre as criaturas, ao passo que Ele mesmo, de Sua parte, desesperaria?

Glorificaria a boa vontade, entre os homens, e conservar-se-ia no cárcere escuro

da negação? O selvagem que haja eliminado os semelhantes, a flechadas, teria

recebido no mundo as mesmas oportunidades de aprender que felicitam o

europeu supercivilizado, que extermina o próximo à metralhadora? Estariam

ambos preparados ao ingresso definitivo no paraíso de bem-aventurança

infindável tão somente pelo batismo simbólico ou graças a tardio

arrependimento no leito de morte?

A lógica e o bom-senso nem sempre se compadecem com argumentos

teológicos imutáveis. A vida nunca interrompe atividades naturais, por

imposição de dogmas estatuídos de artifício. E, se mera obra de arte humana,

cujo termo é a bolorenta placidez dos museus, exige a paciência de anos para

ser empreendida e realizada, que dizer da obra sublime do aperfeiçoamento da

alma, destinada a glórias imarcescíveis?

Vários companheiros de ideal estranham a cooperação de André Luiz,

que nos tece informações sobre alguns setores das esferas mais próximas ao

comum dos mortais.

Iludidos na teoria do menor esforço, inexistente nos círculos elevados,

contavam com preeminência pessoal, sem nenhum testemunho de serviço e

distantes do trabalho digno, em um céu de gozos contemplativos, exuberante de

conforto melifico. Prefeririam a despreocupação das galerias, em beatitude

permanente, onde a grandeza divina se limitaria a prodigioso. espetáculos,

cujos números mais surpreendentes estariam a cargo dos Espíritos Superiores,

convertidos em jograis de vestidura brilhante.

A missão de André Luiz é, porém, a de revelar os tesouros de que

somos herdeiros felizes na Eternidade, riquezas imperecíveis; em cuja posse

jamais entraremos sem a Indispensável aquisição de Sabedoria e de Amor.

Para isto, não lidamos em milagrosos laboratórios de felicidade

improvisada, onde se adquiram dotes de vil preço e ordinárias asas de cera.

Somos filhos de Deus, em crescimento. Sela nos campos de forças condensadas,

quais os da luta física, seja nas esferas de energias sutis, quais as do plano

superior, os ascendentes que nos presidem os destinos são de ordem evolutiva,

pura e simples, com indefectível justiça a seguirmos de perto, à claridade

gloriosa e com passiva do Divino Amor.

A morte a ninguém propiciará passaporte gratuito para a ventura

celeste. Nunca promoverá compulsoriamente homens a anjos. Cada criatura

transporá essa aduana da eternidade com a exclusiva bagagem do que houver

semeado, e aprenderá que a ordem e a hierarquia, a paz do trabalho edificante,

são característicos imutáveis da Lei, em toda parte.

Ninguém, depois do sepulcro, gozará de um descanso a que não tenha

feito jus, porque “o Reino do Senhor não vem com aparências externas”.

Os companheiros que compreendem, na experiência humana, a escada

sublime, cujos degraus há que vencer a preço de suor, com o proveito das

bênçãos celestiais, dentro da prática Incessante do bem, não se surpreenderão

com as narrativas do mensageiro interessado no servir por amor. Sabem eles

que não teriam recebido o dom da vida para matar o tempo, nem a dádiva da’ fé

para confundir os semelhantes, absorvidos, que se acham, na execução dos

Divinos Desígnios. Todavia, aos crentes do favoritismo, presos à teia de velhas

ilusões, ainda quando se apresentem com os mais respeitáveis títulos, as

afirmativas do emissário fraternal provocarão descontentamento e

perplexidade.

É natural, porém: cada lavrador respira o ar do campo que escolheu.

Para todos, contudo, exoramos a bênção do Eterno: tanto para eles,

quanto para nós.

Emmanuel

Pedro Leopoldo, 25 de março de 1947

(Prefácio do Livro Mundo Maior- Francisco Cândido Xavier (pelo Espírito André Luiz)


LUZ ESPÍRITA

Coleção:

“A Vida no Mundo Espiritual

Ditada por:

ANDRÉ LUIZ

Psicografada por:

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

01 – Nosso Lar

02 – Os Mensageiros

03 – Missionários da Luz

04 – Obreiros da Vida Eterna

05 – No Mundo Maior

06 – Libertação

07 – Entre a Terra e o Céu

08 – Nos Domínios da Mediunidade

09 – Ação e Reação

10 – Evolução em Dois Mundos

11 – Mecanismos da Mediunidade

12 – Sexo e Destino

13 – E a Vida Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

FREI DAMIÃO O IRMÃO DA CARIDADE

  "Mais tarde, adoeceu... E, mesmo assim, Curvado para a Terra, erguia as mãos trementes, Socorrendo viajores e doentes, Embora sempre ...