"Mais tarde, adoeceu... E, mesmo assim,
Curvado para a Terra, erguia as mãos trementes,
Socorrendo viajores e doentes,
Embora sempre a febre a recordar-lhe o fim...
De corpo gasto e desarticulado,
Numa noite de gelo, ele escuta um chamado:
- Damião, Damião, há mau tempo, abre a porta,
Liberta-me do frio que me corta!...
Levanta-se o velhinho e abre a cabana estreita,
Vê diante de si um enfermo que se arrasta,
Nota-lhe o corpo em lepra, a desfazer-se todo,
É um pedinte de estrada em chaga, sangue e lodo...
- Abriga-me hoje só - ele diz, suplicante.
- Damião não vacila e dá-lhe o próprio teto.
Lá fora, a ventania é o tumulto completo.
Ulula o furacão desatado e violento,
Tombam troncos viris aos arrancos do vento...
- Tenho fome, Damião - clama o recém-chegado -
O velhinho febril treme, avança, tateia,
Procura o pão guardado
E dá-lhe o pão que tem, entre o prato e a candeia.
- Tenho sede, Damião, pede o estranho viajor,
Trago a garganta em fogo, em tremenda secura...
Damião traz-lhe um pouco de água pura
E o pobre continua, em voz lenta e magoada:
- Tenho frio, Damião, sofri muito na estrada...
O irmão da caridade não hesita,
Dá-lhe a pele de uso que o recobre,
Entretanto, o infeliz, tão triste quanto pobre
Exclama: - estou cansado, a inquietação me agita,
Ajuda-me a dormir
Quero um leito, Damião...
Damião dá-lhe o leito e se deita no chão.
Mas o pobre na cama, agasalhado e quente
Roga em pranto: - Damião, tenho o corpo doente,
Aquece-me, por Deus, tenho a carne ferida,
Vem a mim!... Teu calor pode salvar-me a vida!...
Damião não vacila, ergue-se com carinho,
Ele conhece a dor dos tristes do caminho...
Lembra outras noites más, chuvosas e nevoentas,
E abraça-lhe, ao deitar-se, as chagas purulentas...
Mas nisso a choça escura se ilumina...
Damião sente um choque... E busca o itinerante
Mas já não vê o pobre suplicante...
Erguera-se o mendigo,
Mostra um rosto diverso e um sorriso sereno...
Ajoelha-se, à pressa, o irmão dos infelizes
E no pranto a banhar-lhe o rosto em cicatrizes,
Reconhece no estranho o Mestre Nazareno."
trecho de poesia de Maria Dolores, psicografada por Chico Xavier, no livro Coração e Vida, Ideal editora.

