13 de abr. de 2022

FREI DAMIÃO O IRMÃO DA CARIDADE

 


"Mais tarde, adoeceu... E, mesmo assim,

Curvado para a Terra, erguia as mãos trementes,

Socorrendo viajores e doentes,

Embora sempre a febre a recordar-lhe o fim...

De corpo gasto e desarticulado,

Numa noite de gelo, ele escuta um chamado:

- Damião, Damião, há mau tempo, abre a porta,

Liberta-me do frio que me corta!...

Levanta-se o velhinho e abre a cabana estreita,

Vê diante de si um enfermo que se arrasta,

Nota-lhe o corpo em lepra, a desfazer-se todo,

É um pedinte de estrada em chaga, sangue e lodo...

- Abriga-me hoje só - ele diz, suplicante.

- Damião não vacila e dá-lhe o próprio teto.

Lá fora, a ventania é o tumulto completo.

Ulula o furacão desatado e violento,

Tombam troncos viris aos arrancos do vento...

- Tenho fome, Damião - clama o recém-chegado -

O velhinho febril treme, avança, tateia,

Procura o pão guardado

E dá-lhe o pão que tem, entre o prato e a candeia.

- Tenho sede, Damião, pede o estranho viajor,

Trago a garganta em fogo, em tremenda secura...

Damião traz-lhe um pouco de água pura

E o pobre continua, em voz lenta e magoada:

- Tenho frio, Damião, sofri muito na estrada...

O irmão da caridade não hesita,

Dá-lhe a pele de uso que o recobre,

Entretanto, o infeliz, tão triste quanto pobre

Exclama: - estou cansado, a inquietação me agita,

Ajuda-me a dormir

Quero um leito, Damião...

Damião dá-lhe o leito e se deita no chão.

Mas o pobre na cama, agasalhado e quente

Roga em pranto: - Damião, tenho o corpo doente,

Aquece-me, por Deus, tenho a carne ferida,

Vem a mim!... Teu calor pode salvar-me a vida!...

Damião não vacila, ergue-se com carinho,

Ele conhece a dor dos tristes do caminho...

Lembra outras noites más, chuvosas e nevoentas,

E abraça-lhe, ao deitar-se, as chagas purulentas...

Mas nisso a choça escura se ilumina...

Damião sente um choque... E busca o itinerante

Mas já não vê o pobre suplicante...

Erguera-se o mendigo,

Mostra um rosto diverso e um sorriso sereno...

Ajoelha-se, à pressa, o irmão dos infelizes

E no pranto a banhar-lhe o rosto em cicatrizes,

Reconhece no estranho o Mestre Nazareno."


trecho de poesia de Maria Dolores, psicografada por Chico Xavier, no livro Coração e Vida, Ideal editora.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

FREI DAMIÃO O IRMÃO DA CARIDADE

  "Mais tarde, adoeceu... E, mesmo assim, Curvado para a Terra, erguia as mãos trementes, Socorrendo viajores e doentes, Embora sempre ...