18 de mar. de 2022

Ante as portas livres

 Ante as portas livres de acesso ao trabalho cristão e ao conhecimento

salutar que André Luiz vai desvelando, recordamos prazerosamente a antiga

lenda egípcia do peixinho vermelho.

No centro de formoso jardim, havia grande lago, adornado de ladrilhos

azul-turquesa. Alimentado por diminuto canal de pedra, escoava suas águas, do

outro lado, através de grade muito estreita.

Nesse reduto acolhedor, vivia toda uma comunidade de peixes, a se

refestelarem, nédios e satisfeitos, em complicadas locas, frescas e sombrias.

Elegeram um dos concidadãos de barbatanas para os encargos de rei, e ali

viviam, plenamente despreocupados, entre a gula e a preguiça. Junto deles,

porém, havia um peixinho vermelho, menosprezado de todos.

Não conseguia pescar a mais leve larva, nem refugiar-se nos nichos

barrentos. Os outros, vorazes e gordalhudos, arrebatavam para si todas as

formas larvárias e ocupavam, displicentes, todos os lugares consagrados ao

descanso. O peixinho vermelho que nadasse e sofresse. Por isso mesmo era

visto, em correria constante, perseguido pela canícula ou atormentado de fome.

Não encontrando pouso no vastíssimo domicilio, o pobrezinho não

dispunha de tempo para muito lazer e começou a estudar com bastante

interesse.

Fez o inventário de todos os ladrilhos que enfeitavam as bordas do

poço, arrolou todos os buracos nele existentes e sabia, com precisão, onde se

reuniria maior massa de lama por ocasião de aguaceiros. Depois de muito

tempo, à custa de longas perquirições, encontrou a grade do escoadouro.

A frente da imprevista oportunidade de aventura benéfica, refletiu

consigo:

— “Não seria| melhor pesquisar a vida e conhecer outros rumos?”

Optou pela mudança.

Apesar de macérrimo pela abstenção completa de qualquer conforto,

perdeu várias escamas, com grande sofrimento, a fim de atravessar a passagem

estreitíssima.

Pronunciando votos renovadores, avançou, otimista, pelo rego d’água,

encantado com as novas paisagens, ricas de flores e sol que o defrontavam, e

seguiu, embriagado de esperança...

Em breve, alcançou grande rio e fez inúmeros conhecimentos.

Encontrou peixes de muitas famílias diferentes, que com ele simpatizaram,

instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe mais fácil

roteiro.

Embevecido, contemplou nas margens homens e animais, embarcações

e pontes, palácios e veículos, cabanas e arvoredo.

Habituado com o pouco, vivia com extrema simplicidade, jamais

perdendo a leveza e a agilidade naturais. Conseguiu, desse modo, atingir o

oceano, ébrio de novidade e sedento de estudo.

De Inicio, porém, fascinado pela paixão de observar, aproximou-se de

uma baleia para quem toda a água do lago em que vivera não seria mais que

diminuta ração; impressionado com o espetáculo, abeirou-se dela mais que

devia e foi tragado com os elementos que lhe constituíam a primeira refeição

diária.

Em apuros, o peixinho aflito orou ao Deus dos Peixes, rogando proteção

no bojo do monstro e, não obstante as trevas em que pedia salvamento, sua

prece foi ouvida, porque o valente cetáceo começou a soluçar e vomitou,

restituindo-o às correntes marinhas.

O pequeno viajante, agradecido e feliz, procurou companhias

simpáticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações. Plenamente

transformado em suas concepções do mundo, passou a reparar as infinitas

riquezas da vida. Encontrou plantas luminosas, animais estranhos, estrelas

móveis e flores diferentes no seio das águas. Sobretudo, descobriu a existência

de muitos peixinhos, estudiosos e delgados tanto quanto ele, junto dos quais se

sentia maravilhosamente feliz.

Vivia, agora, sorridente e calmo, no Palácio de Coral que elegera, com

centenas de amigos, para residência ditosa, quando, ao se referir ao seu começo

laborioso, veio a saber que somente no mar as criaturas aquáticas dispunham

de mais sólida garantia, de vez que, quando o estio se fizesse mais arrasador, as

águas de outra altitude continuariam a correr para o oceano. O peixinho

pensou, pensou... e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera

na infância, deliberou consagrar-se à obra do progresso e salvação deles.

Não seria justo regressar e anunciar-lhes a verdade? Não seria nobre

ampará-los, prestando-lhes a tempo valiosas informações? Não hesitou.

Fortalecido pela generosidade de irmãos benfeitores que com ele viviam no

Palácio de Coral, empreendeu comprida viagem de volta.

Tornou ao rio, do rio dirigiu-se aos regatos e dos regatos se

encaminhou para os canaizinhos que o conduziram ao primitivo lar.

Esbelto e satisfeito como sempre, pela vida de estudo e serviço a que se

devotava, varou a grade e procurou, ansiosamente, os velhos companheiros.

Estimulado pela proeza de amor que efetuava, supôs que o seu regresso

causasse surpresa e entusiasmo gerais. Certo, a coletividade inteira lhe

celebraria o feito, mas depressa verificou que ninguém se mexia.

Todos os peixes continuavam pesados e ociosos, repimpados nos

mesmos ninhos lodacentos, protegidos por flores de lótus, de onde saiam

apenas para disputar larvas, moscas ou minhocas desprezíveis.

Gritou que voltara a casa, mas não houve quem lhe prestasse atenção,

porquanto ninguém, ali, havia dado pela ausência dele.

Ridiculizado, procurou, então, o rei de guelras enormes e comunicou-lhe

a reveladora aventura.

O soberano, algo entorpecido pela mania de grandeza, reuniu o povo e

permitiu que o mensageiro se explicasse. O benfeitor desprezado, valendo-se

do ensejo, esclareceu, com ênfase, que havia outro mundo liquido, glorioso e

sem fim. Aquele poço era uma Insignificância que podia desaparecer, de

momento para outro. Além do escoadouro próximo desdobravam-se outra vida

e outra experiência. Lá fora, corriam regatos ornados de flores, rios caudalosos

repletos de seres diferentes e, por fim, o mar, onde a vida aparece cada vez mais

rica e mais surpreendente.

Descreveu o serviço de tainhas e salmões, de trutas e esqualos. Deu

notícias do peixe lua, do peixe coelho e do galo-do-mar. Contou que vira o céu

repleto de astros sublimes e que descobrira árvores gigantescas, barcos

imensos, cidades praieiras, monstros temíveis, jardins submersos, estrelas do

oceano e ofereceu-se para conduzi-los ao Palácio de Coral, onde viveriam todos,

prósperos e tranquilos. Finalmente os informou de que semelhante felicidade,

porém, tinha igualmente seu preço. Deveriam todos emagrecer,

convenientemente, abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme nas locas

escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário à

venturosa jornada.

Assim que terminou, gargalhadas estridentes coroaram-lhe a preleção.

Ninguém acreditou nele. Alguns oradores tomaram a palavra e afirmaram,

solenes, que o peixinho vermelho delirava, que outra vida além do poço era

francamente impossível, que aquela história de riachos, rios e oceanos era mera

fantasia de cérebro demente e alguns chegaram a declarar que falavam em

nome do Deus dos Peixes, que trazia os olhos voltados para eles unicamente.

O soberano da comunidade, para melhor ironizar o peixinho, dirigiu-se

em companhia dele até à grade de escoamento e, tentando, de longe, a travessia,

exclamou, borbulhante:

— “Não vês que não cabe aqui nem uma só de minhas barbatanas?

Grande tolo! vai-te daqui! não nos perturbes o bem-estar... Nosso lago é o

centro do Universo... Ninguém possui vida igual { nossa!”

Expulso a golpes de sarcasmo, o peixinho realizou a viagem de retorno

e instalou-se, em definitivo, no Palácio de Coral, aguardando o tempo. Depois de

alguns anos, apareceu pavorosa e devastadora seca. As águas desceram de

nível. E o poço onde viviam os peixes pachorrentos e vaidosos esvaziou-se,

compelindo a comunidade inteira a perecer, atolada na lama...

O esforço de André Luiz, buscando acender luz nas trevas, é semelhante

à missão do peixinho vermelho. Encantado com as descobertas do caminho

infinito, realizadas depois de muitos conflitos no sofrimento, volve aos

recôncavos da Crosta Terrestre, anunciando aos antigos companheiros que,

além dos cubículos em que se movimentam, resplandece outra vida, mais

intensa e mais bela, exigindo, porém, acurado aprimoramento individual para a

travessia da estreita passagem de acesso às claridades da sublimação.

Fala, informa, prepara, esclarece...

Há, contudo, muitos peixes humanos que sorriem e passam, entre a

mordacidade e a Indiferença, procurando locas passageiras ou pleiteando

larvas temporárias. Esperam um paraíso gratuito com milagrosos

deslumbramentos depois da morte do corpo.

Mas, sem André Luiz e sem nós, humildes servidores de boa vontade,

para todos os caminheiros da vida humana pronunciou o Pastor Divino as

indeléveis palavras: — “A cada um será dado de acordo com as suas obras”.

Emmanuel

Pedro Leopoldo, 22 de fevereiro de 1949


(PREFÁCIO DO LIVRO LIBERTAÇÃO

6º livro da coleção:

A VIDA NO MUNDO ESPIRITUAL

Ditada por:

ANDRÉ LUIZ

Psicografada por:

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER)

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